Dia Nacional do Livro: escritoras do Cariri dão voz a quem era silenciado

  • 29/10/2026
(Foto: Reprodução)
Aline Bussons, Dia Bárbara Nobre e Zulmira Correia, escritoras da região do Cariri (CE). Mauro Figa/Reprodução O Dia Nacional do Livro é celebrado nesta quinta-feira (29) em homenagem à fundação da Biblioteca Nacional, em 1810. Para marcar a data, o g1 entrevistou escritoras do Cariri dedicadas a segmentos diferentes da literatura, mas com uma missão em comum: dar voz a quem era silenciado. A historiadora Dia Bárbara Nobre nasceu em Juazeiro do Norte. A partir do contato com livros e documentos da historiografia cearense, ela descobriu Maria de Araújo, personagem central do Cariri que, até então, tinha pouco espaço nos livros. "Essa pesquisa sobre a beata Maria de Araújo resultou, muitos anos depois, no livro 'Incêndios da Alma'. E resultou também em outra coisa: na percepção de que os arquivos estão cheios de mulheres cujas vozes chegam até nós mediadas, silenciadas ou deformadas pelo olhar de quem teve o poder de escrever.", explica a escritora. ✅ Clique e siga o canal do g1 Ceará no WhatsApp "Incêndios da Alma" virou referência para estudiosos do catolicismo popular do Cariri. Após o sucesso do livro, nasceu o desejo pela ficção. Em 2025, a autora publicou o primeiro romance. "Boca do Mundo" aborda a vida de mulheres que sofrem violência doméstica e o poder da união delas. "A literatura me permitiu fazer uma pergunta diferente. Não apenas 'o que aconteceu com essas mulheres?', mas: 'e se elas pudessem falar?'. É desse lugar que nasce 'Boca do Mundo'. Nele, pude inventar um sertão próprio, mesclando minhas experiências no sertão do Ceará onde nasci e no sertão do pernambuco, onde morei por nove anos", explica a autora. "O livro me permitiu falar profundamente sobre o Cariri que conheço: um lugar atravessado pela fé e pela violência, pelo desejo e pelo medo, pelo sonho, pela memória e pelo assombro. Um lugar em que as mulheres sempre estiveram no centro da vida, embora nem sempre tenham ocupado o centro das narrativas", conclui. Mulheres do Cariri Zulmira Correia é outra escritora do Cariri dedicada a dar voz às mulheres. "Água-ventre", que será lançado neste novembro, conta histórias de personagens femininos inspirados em gente que atravessou a vida da autora nascida na zona rural do Crato. Antes de ser livro, era exposição de arte, reunindo arquivos sonoros, fotográficos e textuais produzidos a partir de uma investigação sobre memória matriarcal e território, tendo como referência as águas da Chapada do Araripe, território ancestral onde ela nasceu e permaneceu. "O nome deriva das narrativas de água do meu território como chuva, a plantação, os barreiros. E o ventre vem das narrativas de nascimento, do parto. Minha bisavó era parteira e dela vieram alguns desses caminhos, inclusive parte desse título. Minha família é matriarcal. Tenho exemplos de mulheres em suas essências, histórias de vida, enfermeiras, agricultoras, parteiras, rezadeiras", afirma a autora, que explica que o livro mescla poesia com outros gêneros literários. Literatura infantil Aline Bussons, escritora de livros infantis, comenta sobre carreira na literatura. A trajetória de Aline Bussons ganha destaque na literatura infantil com histórias que buscam dar voz às crianças por meio de metáforas que têm animais como protagonistas. "Uma baleia muito esperta" apresenta Roberta, baleia curiosa que faz com que os leitores reflitam sobre respeito, diferenças e a liberdade de ser quem se é. Já "O Hipopótamo que tinha ideias demais" conta a história de Everardo, hipopótamo que passa os dias na lagoa tendo ideias inusitadas e criativas. "Sempre estou chamando a atenção para o direito à liberdade que a criança tem de pensar, de imaginar, chamando atenção para a autonomia da criança, que é muito comprometida nesse modelo de sociedade ocidental e adultocêntrica", afirma a escritora. Assim como Dia Bárbara Nobre e Zulmira Correia, a vida no Cariri também é fonte de inspiração para o trabalho de Aline Bussons, que está trabalhando em novo título. "Minha família é de Acaraú, mas meu pai trabalhou em várias cidades na minha infância: Missão Velha, Aurora, Antonina do Norte. E o meu próximo livro vai ser uma autoficção sobre minha infância em Missão Velha, da época que eu fazia catecismo", revela. Pesquisadora Luciana Bessa considera a literatura como uma "arte política". Para a pesquisadora e doutora em Letras Luciana Bessa, da Universidade Federal do Ceará (UFC), a literatura é uma arte política. Segundo ela, é preciso superar a ilusão de que a linguagem seja realizada em campo neutro. "A literatura é criada por homens e mulheres que são seres políticos, como diz Aristóteles. Quando a gente está diante de um livro, temos que ter em mente que aquela linguagem que está ali na nossa frente foi criada propositadamente para que o autor leve o leitor a pensar aquela mensagem que o escritor quer", afirma. "É uma linguagem revestida de retórica, gramática, semântica, lógica, dialética, para levar o leitor a se perguntar o que estou lendo e o por que estou lendo. É uma linguagem que é revestida de filosofia, ideologia, de um apelo emocional, de um sentimento daquele que escreve", completa. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/cariri/noticia/2026/10/29/dia-nacional-do-livro-escritoras-do-cariri-dao-voz-a-quem-era-silenciado.ghtml


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