Agricultor é agredido e tem rosto fraturado após reclamar que companheiro foi impedido de usar passe-livre em van no Ceará

  • 09/10/2026
(Foto: Reprodução)
Câmera de segurança flagrou momento em que agricultor foi agredido no Ceará. Fernando Lemons Francisco, de 37 anos, foi agredido e ficou com lesões permanentes no rosto após uma discussão em Itapipoca, no Ceará. O caso aconteceu no dia 11 de agosto de 2026, e o g1 teve acesso a imagens da agressão (veja no vídeo acima) nesta semana. Devido às lesões, o agricultor teve fraturas na região do maxilar e precisou passar por cirurgias em Fortaleza. A agressão ocorreu após Fernando ter uma reunião com a Cooperita, cooperação de vans que opera entre municípios da região norte do Ceará. O encontro foi marcado para o agricultor representar o companheiro, Gabriel de Sousa Lima, de 20 anos, que teria sido impedido de usar gratuitamente o serviço das vans. Gabriel e Fernando possuem união estável. ✅ Clique e siga o canal do g1 Ceará no WhatsApp Na saída da reunião, o agricultor foi agredido por um homem identificado como José Carlos de Sousa Rodrigues. Conforme documentos acessados pelo g1, ele teria ligações comerciais com um motorista da cooperativa, mas não é funcionário da Cooperita. O g1 não conseguiu localizar a defesa de José Carlos. Imagens de câmera de segurança mostram José Carlos abordando e empurrando Fernando na frente da sede da cooperativa. Em outro vídeo, ele apareceu segurando uma pasta que pertencia a Fernando e quebrando o celular do agricultor ao arremessar o aparelho no chão. A Polícia Civil informou que a Delegacia de Itapipoca investiga o crime de lesão corporal e disse que um suspeito foi identificado. Porém, ninguém foi preso até a publicação desta matéria. Fernando entrou com um processo por danos materiais e denunciou a Cooperita, cooperação de vans que opera entre municípios da região norte do Ceará. O g1 entrou em contato com a defesa da cooperativa, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem. " Eu perdi a mastigação, sequela definitiva, estética. Parestesia [formigamento/dormência] no lado [direito]. Não sinto mais nada", lamentou Fernando. Discussão por passe-livre Fernando Lemons Francisco, de 37 anos, disse que foi atacado após uma reunião com um representante da cooperativa de vans. Reprodução. Gabriel Lima, à época, fazia acompanhamento psiquiátrico em uma clínica particular de Itapipoca. Por este motivo, utilizava, há 5 meses, a gratuidade nas vans da região norte. O jovem é diagnosticado com Síndrome de Tourette e teria sido impedido de usar o passe-livre concedido para pessoa com deficiência. 💡 A Síndrome de Tourette é uma doença relacionada à saúde mental e neurológica, que comumente aparece associada a uma variedade de problemas emocionais e de comportamento. Entre os sintomas estão tiques motores (repetição de gestos obscenos, repetição de movimentos de outras pessoas) e tiques vocais (como a repetição de palavras obscenas, repetição ou imitação de ecos de palavras que a própria pessoa acabou de dizer, repetição de palavras ou frases que ouve de outras pessoas). ➡️ O passe-livre é destinado a conferir gratuidade ao direito de assentos reservados nos serviços regulares convencionais (ônibus) e nos serviços regulares complementares (vans) às pessoas com deficiência e com hemofilia, comprovadamente carentes. Também têm direito pessoas vivendo com HIV e AIDS, devidamente diagnosticadas, mediante a comprovação da instituição em que é realizado o tratamento de saúde. No dia 3 de agosto de 2026, Gabriel foi, sozinho, utilizar o serviço da van operada pela Cooperita. No entanto, motorista e cobrador que trabalhavam na van tentaram impedir Gabriel de utilizar a gratuidade. Ele conseguiu utilizar o serviço, mas, na volta para casa, no mesmo dia, passou por novo constrangimento do mesmo funcionário que alegou que "Gabriel já havia viajado gratuitamente naquele dia". Ao g1, a Agência Reguladora do Ceará (Arce) explicou que é necessário possuir um cartão específico de gratuidade para que pessoas diagnosticadas com alguma deficiência possam utilizar o benefício. No entanto, o casal argumentou que Gabriel utilizava o serviço há meses e a Cooperita não cobrava a apresentação do cartão. Até então, era necessário apenas que Gabriel mostrasse um qr-code impresso em um crachá que ele usava no pescoço. Ao ler o qr-code, era possível acessar um Certificado da Pessoa com Deficiência emitido, em nome de Gabriel, pelo Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. No dia 4 de agosto, Gabriel passou, novamente, por constrangimento ao tentar utilizar a gratuidade na van. Dessa vez, ele estava acompanhado de Fernando. O casal acredita que o impedimento tenha também homofobia envolvida. "Vocês acham que são melhores que os outros", teria dito o funcionário da empresa, em referência a ambos serem homossexuais. O episódio provocou a crise que levou Gabriel à internação hospitalar. Agressão após reunião Câmera mostra discussão na sede da cooperativa antes de agricultor ser agredido. O casal marcou uma reunião com a direção da Cooperita para tentar resolver o problema do uso da gratuidade. No entanto, Gabriel teve um surto psiquiátrico e precisou ficar internado em um hospital. Assim, Fernando foi sozinho ao encontro na sede da cooperativa. "Quando ele foi me atender, eu falei assim: 'A situação de discriminação agora já virou uma situação um pouco mais séria, porque o meu esposo precisou ser internado. Ele olhou para mim e falou assim: 'Eu não tenho nada a ver com isso. Eu não quero saber disso'", lembrou Fernando. Fernando foi recebido pelo presidente da Cooperita, Ricardo Oliveira Lima. Os dois discutiram após Ricardo perceber que Fernando estava filmando a conversa com um aparelho celular. Os ânimos entre os dois se exaltaram (veja no vídeo acima) e Ricardo pediu que Fernando fosse embora. Ainda na frente da sede da Cooperita, o agricultor foi surpreendido pela chegada de José Carlos, que iniciou as agressões físicas. Devido às agressões, Fernando procurou a Delegacia de Itapipoca para denunciar o caso. Ricardo também foi a unidade policial para depor. O g1 teve acesso ao depoimento prestado por Ricardo Oliveira Lima na delegacia de Itapipoca. À polícia, ele disse que conversou com Fernando até o momento em que percebeu que ele gravava a conversa com um celular. Ricardo teria dito a Fernando que "aquele não era o caminho" e perguntou se o agricultor queria extorqui-lo. Ele se recusou a continuar a reunião se Fernando continuasse gravando. Então, pediu que o agricultor fosse embora da sede da cooperativa. Lesões permanentes Exames mostram placas e pinos colocados na face de Fernando devido às fraturas. Reprodução Fernando perdeu todos os dentes por conta da gravidade da agressão. Ele teve de colocar duas placas metálicas e quatro pinos de metais, além de precisar passar por cirurgia bucomaxilofacial para o tratamento das fraturas. Desde a agressão, ele não consegue se alimentar normalmente, ingerindo apenas alimentação pastosa. O agricultor foi encaminhado a Fortaleza em uma ambulância disponibilizada pela Prefeitura de Itapipoca. Ele, primeiro, foi atendido em um hospital particular e, depois, encaminhado ao Hospital Instituto Dr. José Frota (IF), no Centro de Fortaleza. "Fui informado pela equipe médica que tem uma sequela permanente em relação a um nervo da face do Fernando. Não tem como corrigir. Ele rompeu um nervo importante do maxilar, vai sentir dormência no queixo e na parte do maxilar direito", disse Gabriel após a cirurgia do companheiro. Fernando foi diagnosticado com: Fratura da mandíbula causada pela agressão física; Complicação mecânica de outros dispositivos, implantes e enxertos ósseos internos; Assimetria facial estrutural e protusão; Colapso da Dimensão Vertical de Oclusão - DVO (redução no terço inferior da face com padrão braquifacial severo e perda de suporte labial/tecidos moles; E impotência funcional mastigatória severa (perda total da capacidade oclusal por ausência de engrenamento dental e comprometimento alveolar). A defesa de Fernando pediu à Justiça que a Cooperita pague uma indenização de R$1.924.129,56 referentes aos danos (morais, mentais, físicos e materiais) causados no episódio da agressão. "Ele destruiu a minha boca. A minha alimentação é comum, só que é mais reforçada, porque eu não tenho dentes. A alimentação vai encarecer meu custo de vida. Hoje a gente está vivendo do quê? De empréstimos", lamentou o agricultor. Decisões judiciais No último dia 2 de outubro, a Justiça determinou que a Cooperita ficará responsável por custear: Medicamentos exclusivamente mediante exibição de três orçamentos, sempre com apresentação de prescrição médica atualizada e indicando relação com o fato [fraturas], cujo pagamento deve se dar exclusivamente ao fornecedor; Transporte para atendimento realizado fora do município de domicílio [Trairi] do autor fica condicionado à demonstração da inexistência de profissional ou estabelecimento apto ao atendimento em seu domicílio ou em localidade mais próxima, observada a ampliação gradativa do raio geográfico, bem como, quando necessária modalidade especial de transporte em razão das limitações decorrentes das fraturas, à correspondente indicação pelo médico assistente. O juiz Gustavo Ferreira Mainardes decidiu ainda que "as consultas médicas/odontológicas só poderão ser agendadas mediante prévio encaminhamento da relação dos profissionais existentes [sempre primeiro indicando aqueles do município e, não havendo, ampliando o raio geográfico gradativamente], com respectivo valor da consulta e indicação de ao menos 3 – cabendo ao réu eleger e acordar, diretamente, o custeio". "Os exames - que igualmente deverão observar a praça de domicílio e ampliação gradativa do raio geográfico – igualmente demandam 3 orçamentos, fornecimento dos contatos diretamente ao réu para tratamento direto das questões financeiras e ficam sujeitos à prescrição médica atualizada constando vinculação de sua recomendação ao tratamento das lesões", complementou o juiz. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/10/09/agricultor-e-agredido-e-tem-rosto-fraturado-apos-reclamar-que-companheiro-foi-impedido-de-usar-passe-livre-em-van-no-ceara.ghtml


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